Pastoral


OS SINAIS DA SALVAÇÃO – AS MARCAS DE JESUS

Daqui em diante ninguém me moleste; porque eu trago no meu corpo as marcas de Jesus” (Gl. 6:17).

Paulo, o apóstolo, ao se referir às marcas de Cristo em seu corpo, estava passando a mensagem dos sinais da sua salvação, os mesmos sinais que, em nossos dias, devem estar presentes na vida de todo(a) aquele(a) que é resgatado(a) das sombras da morte para a maravilhosa luz da regeneração, do novo nascimento pela Graça, mediante o sacrifício vicário de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Deus, por Sua Graça, “(…) que nos tirou do poder das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado” (Colossenses 1:13); “o povo que estava sentado em trevas viu uma grande luz; sim, aos que estavam sentados na região da sombra da morte, a estes a luz raiou” (Mateus 4:16).

Em que pese o terrível sofrimento físico experimentado por Nosso Senhor Jesus Cristo em todo o Seu corpo: os socos no rosto, as cusparadas, as chicotadas com azorragues feitos de tiras de couro, em cujas extremidades os romanos costumavam colocar bolinhas de chumbo para o fim de rasgar a carne…

Em que pese tudo isso, três são as grandes marcas de Sua flagelação: a coroa de espinhos, na cabeça, os cravos nas mãos e nos pés.

A Primeira Marca – Símbolo do Castigo à Pessoa

A terrível coroa de espinhos, na cabeça, colocada à força pelos soldados romanos com a ajuda de grandes torqueses — uma espécie de alicate ou tenaz.

Eram instrumentos de tortura, feitos de ferro, em cujas extremidades prendiam a coroa, para evitar que tivessem de pegá-la com as próprias mãos, com o que poderiam se ferir. Presa a coroa às torqueses, colocaram-na, dois carrascos romanos, um de um lado e outro de outro, forçando-a para baixo sobre a cabeça de Nosso Senhor Jesus Cristo, infligindo-lhe grande dor.

A cabeça encerra o nosso cérebro, onde se encontra praticamente tudo o que somos como seres morais. O cérebro é a sede de nossa personalidade, o responsável pelo comando de todo o nosso corpo, das funções autonômicas, como a respiração e a circulação do sangue pelo bombear do coração, até as mais intrincadas atividades cerebrais, como o pensamento, a memória, a vontade, os sentimentos de amor, ódio, saudade, etc.

Em suma: a cabeça é a pessoa, é o que somos em última instância. Aliás, nossa identidade está na cabeça, somos reconhecidos pela cabeça.

É, portanto, extremamente significativo que uma das principais marcas de Nosso Senhor Jesus Cristo tenha sido o sofrimento causado pela coroa de espinhos em Sua cabeça! Em Sua Personalidade!

Essa marca ou chaga representa o castigo aplicado pelo Pai na sede da nossa personalidade, naquilo que somos como pessoas, no que somos como seres pensantes, detentores do livre arbítrio, da livre vontade de escolher o que pretendemos fazer de nossas vidas: se queremos o bem ou o mal. E foi um castigo suportado pelo Senhor Jesus para o cumprimento da Palavra de Deus, que diz: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53:5).

De onde surgem as nossas transgressões? Onde cogitamos o nascimento das nossas iniquidades? Ou, de outro lado, onde reside a nossa sensação de paz?

Todos esses elementos, essas agendas, todos os sentimentos que podemos experimentar têm sua origem no cérebro, dentro de nossa cabeça. “Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mateus 15:19). A palavra coração neste contexto quer significar o cérebro, a sede da nossa consciência, pois é certo que não pensamos no (ou com o) coração, nem se encontra nesse órgão o centro das nossas razões ou emoções. Ainda que, vulgarmente, possamos nos referir a ele como lugar dos nossos mais diversos sentimentos. É o que se costuma dizer com permissão poética, por exemplo, quando alguém se deixa levar pelas emoções impensadas: “fulano age mais com o coração do que com a razão.”

A coroa de espinhos feriu a parte mais personalística de nosso ser, feriu o nosso EU, o que nós somos: nossa cabeça! Não poderia haver simbolismo mais significativo. Somos o que pensamos que somos; no dizer cartesiano: pensamos, logo somos.

A coroa de espinhos fere nossa identidade, os espinhos, ao penetrarem a pele da cabeça de Nosso Senhor Jesus Cristo, penetram profundamente nosso orgulho, nossa vaidade, arrogância e prepotência.

Quando nos jactamos de nossa reputação, nossa sabedoria, nosso traço pessoal por sermos honestos, justos, bons pais, bons filhos, bons cidadãos, bom isso, bom aquilo, não nos damos conta do que realmente somos, de como somos realmente vistos por Deus: “Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu” (Apocalipse 3:17); ou seja, não vemos que somos apenas resultado de uma série de enganos sobre nós mesmos; miseráveis, pobres, e pouco enxergamos além de um palmo à frente de nosso nariz.

Ah, mas como nos orgulhamos de nossas “qualidades pessoais”, até que a coroa de espinhos se aprofunde sobre nossas cabeças e possamos perceber o quão doloridos e cruéis são esses espinhos.

Cruéis a ponto de fazer com que nos esqueçamos de quem somos porque a dor é intensa e não temos tempo de pensar em mais nada.

Paulo sabia disso.

Por isso afirmou que trazia no corpo as marcas de Cristo.

Paulo sabia que não podia confiar em suas próprias condições e qualidades pessoais porque os espinhos da coroa de Cristo em sua cabeça não lhe permitiam raciocinar direito. Esses espinhos, essa coroa cruenta e dolorosa ao extremo, lhe reduziam as chances de se orgulhar por qualquer coisa que fosse. Por qualquer soberba ou vaidade pessoais, levando-o a refletir sobre sua insignificância, seu estado de miserabilidade e pobreza: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? (Romanos 7:24)”

Sim, a coroa de espinhos sobre a cabeça de Nosso Senhor Jesus Cristo era uma das marcas a que Paulo se referia ter em seu próprio corpo.

A Segunda Marca – Símbolo do Castigo sobre o que fazemos (com as mãos)

É certo que não somos indivíduos estanques, fechados em nós mesmos em compartimentos incomunicáveis e restritos, cada um em sua designação, cada um em seu atributo e responsabilidade.

Nossas mãos não agem por moto próprio, não têm o condão de se movimentar ou tocar em qualquer coisa, se não for por comandos do nosso cérebro.

Mas é certo também que, por analogia, nossas mãos podem representar o trabalho que executamos, a obra que realizamos, os nossos feitos de um modo geral: “E nos afadigamos, trabalhando com nossas próprias mãos. Somos injuriados, e bendizemos; somos perseguidos, e sofremos” (1 Coríntios 4:12); “E, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas” (Atos 18:3).

Faziam tendas.

Trabalhando com as mãos.

Vemos, assim, que as mãos representam quase sempre o que fazemos. E nem sempre fazemos apenas tendas, ou apenas o bem: “Antes no coração forjais iniquidades; sobre a terra pesais a violência das vossas mãos” (Salmos 58:2). “(…) e clamem fortemente a Deus, e convertam-se, cada um do seu mau caminho, e da violência que há nas suas mãos” (Jonas 3:8b).

E o que fazemos foi castigado por Deus nos cravos que atravessaram as mãos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nossas obras, isto é, aquilo que fazemos, seja figuradamente com as mãos, ou seja, objetivamente com todo o nosso ser, indicam que tipo de pessoa somos, pois como trabalhamos e como fazemos o que se nos apresenta ao longo da vida, é que acaba por atribuir valor à nossa existência.

Sim, o castigo sobre as nossas ações restou prefigurado nas marcas dos cravos nas mãos do Senhor Jesus! Paulo tinha também essas marcas em suas ações.

E isto nos induz a pensar se os nosso agir, as nossas ações correspondem às marcas de Cristo em nossas vidas. Será que podemos dizer que agimos de acordo com a consciência de que também carregamos as marcas de Cristo como elementos distintivos da nossa entrega total ao Espírito Santo?

É Ele quem, de fato, tem o controle das nossas obras? Das nossas ações? Quando nos rebelamos contra nosso próximo, porque não atendeu às nossas necessidades, ou porque nos faltou com o respeito, ou porque não fez exatamente como gostaríamos que fizesse, podemos afirmar, como Paulo, que as marcas em nossa maneira de agir (nossas mãos) diante dos homens, por amor ao Evangelho, são as mesmas marcas de Paulo, e, por extensão, as do Senhor Jesus Cristo?

Lamento dizer que a resposta é sempre ou quase sempre negativa.

Não muitos revelam essas marcas em suas condutas diante dos homens e de Deus.

É mesmo corriqueiro ver pessoas que, se dizentes salvas, porém, diante de uma situação que lhes pareça inconveniente, ou inoportuna, se exasperam e mostram a face humana, carnal, para não dizer não regenerada, que, de modo semelhante ou pior que o incrédulo deixa à mostra toda a sua destemperança e egoísmo, maculando a Cruz de Cristo e impedindo que o Espírito da Graça tempere os seus corações.

Não há marca nas mãos, no que faz.

Não há marca no seu procedimento.

A Terceira Marca – Símbolo do Castigo do Nosso Caminhar

Os pés representam os caminhos por onde andamos. Induzem à ideia de escolhas das nossas jornadas nesta vida, por onde andamos, como andamos e com quem andamos.

Aonde nos levam nossos pés?

Quais são as prioridades de nossa vida?

Que caminhos escolhemos para viver?

Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores” (Salmos 1:1).

As respostas a essas perguntas, cada uma a seu tempo, poderão indicar não apenas nossa trajetória como também que tipo de escolhas fazemos, nossas prioridades, nossos objetivos de vida. Temos andado segundo o conselho dos ímpios? Temos nos detido no caminho dos pecadores? Temos nos assentado na roda dos escarnecedores?

Do mesmo modo, como nos conduzimos em cada etapa desse caminhar complementa o tipo de riscos que estamos dispostos a correr, o preço a que nos dispomos a pagar por nossas escolhas, bem assim as consequências de cada trecho percorrido.

Que ambientes frequentamos?

E, nesses ambientes, que tipo de testemunho damos? Como somos vistos?

Somos vistos apenas por uma casca de religiosidade, sem nenhum conteúdo que demonstre uma vida regenerada? Ou as pessoas sabem tão somente que frequentamos uma “igreja” — mor parte das vezes uma empresa ou organização religiosa —, e que temos certos cacoetes evangélicos próprios e nada mais?

Por fim, nossas companhias, nossas amizades, nossos sócios, nosso círculo social, todos aqueles ou aquelas com quem nos dispomos a compartilhar nossas experiências e projetos de vida.

Essas pessoas dirão quem somos e, até mesmo, influenciarão grande parte, senão toda a nossa vida.

Essas marcas dos pés, ou seja, as marcas do caminhar nesta vida, Paulo as possuía de maneira profunda em sua experiência como servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tais e quais marcas devem ser parte de todos os que se dizem salvos pela Graça, mediante o Nome de Jesus.

Elas precisam estar presentes e visíveis em nosso modo de pensar, de agir, de andar, enfim, naquilo que somos como indivíduos morais.

Por que não pensamos de acordo com os preceitos espirituais, de acordo com a Palavra de Deus? Por que teríamos de submeter-nos aos padrões naturais, aos paradigmas deste mundo, com suas regras morais e éticas, que nem sempre, ou quase nunca, estão em consonância com a vontade de Deus?

Paulo sabia como pensar segundo a vontade do Pai.

Ele sabia que nossa mente tende a acomodar-se no ritmo deste mundo, seguindo o curso do que é mais fácil e não do que é adequado e santo. Ele insiste em que tomemos uma atitude em relação à nossa negligência, em nosso comodismo espiritual: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2).

Em outras palavras, devemos nos esforçar para mudar nossos conceitos em relação às coisas deste mundo, não nos conformando com elas, ou seja, não permitindo que sejamos moldados por elas, como se fossemos cópias e resultados dos seus padrões de certo e errado.

Os padrões de certo e errado do mundo, invariavelmente contrários aos padrões Bíblicos, não devem pautar, necessariamente, os nossos padrões.

Porque “(…) Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes” (1 Coríntios 1:27); do que concluímos que, segundo a mente do Pai, as coisas loucas deste mundo são tudo aquilo que é tido por errado, por ruim, segundo os padrões deste mundo.

No entanto, para Deus, repito, nem sempre o que é injusto, errado, ou ruim, conforme o conceito do mundo, segundo os preceitos dos homens, é injusto, errado, ou ruim para os Seus propósitos eternos.

Devemos crer exatamente assim, pois “(…) sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). Certo está que, para os que não amam a Deus, todas as coisas não contribuem conjuntamente para o seu bem.

Nosso caminhar, portanto, deve refletir as marcas de Cristo em Seus pés, que simbolizam o castigo que nos traz a paz, castigo esse que esteve sobre Ele.

Jesus caminhou o caminho da maldição, evitando, assim, que nós precisássemos passar por ele.

Paulo experimentou esse caminhar e nós devemos experimentá-lo também: “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo” (1 Coríntios 11:1).

N’Ele,

José